domingo, 7 de Dezembro de 2008

RADINHO DE PILHA - Por Carlos Éden Meira*


Ele ficava ali, sentado horas a fio em um banco tosco talhado num pedaço de tronco, sob a sombra de uma velha gameleira. Barbas, sobrancelhas e cabelos alvos, destacavam-se da pele escura, queimada de sol e marcada por um emaranhado de rugas, assemelhando-se a uma figura esculpida em barro, com rachaduras provocadas pela exposição ao sol. Suas mãos calejadas por anos de trabalho duro, moviam-se com destreza no preparo do cigarrinho ”drobó”, a picar o fumo de corda, a cortar e alisar a palha com uma pequena faca bem amolada, que trazia sempre numa bainha de coro cru, presa ao cinto junto com o seu “isqueiro”, o qual consistia em uma ponta de chifre de boi, recheada com algodão embebido em querosene, que se tornava em brasa ao contato com pequenas fagulhas ali lançadas cuidadosamente, ao atrito de duas pequenas pedras ou pedaços de metal. Para acender o cigarro, era preciso antes assoprar bastante o algodão, até se tornar em brasa viva, e ali encostar a ponta do cigarro.

Ao lado, seu inseparável “radinho de pilha”, sempre sintonizado em alguma emissora de São Paulo, cidade de onde recebera o radinho, enviado por um de seus netos que já havia tempos, para lá viajara em busca de um sonhado emprego, numa fábrica de biscoitos. Maravilha das maravilhas, o radinho tocava e cantava lindas músicas que falavam de saudades do sertão, que o emocionavam, e às vezes o faziam chorar. Ah, mas também contava casos engraçados e dava muita notícia interessante! “O compadre Quincas da Lagoa Branca tem um maior do que esse, mas, só toca música feia e só diz mentira”, afirmava ele. Se alguém perguntasse quais as mentiras do rádio do compadre, ele dizia revoltado:

“Pois não é que uma vez, o danado do rádio do compadre tava dizendo que os gringos tinham pisado na Lua? Onde já se viu mentira mais cabeluda do que essa? A lua é coisa de Deus e só quem pisa nela é São Jorge! E as músicas que tocava? Tinha um tal de roque, roque, roque! Parecia até rato roendo a parede! Meu radinho, não. Meu radinho é pequeno, mas, só fala a verdade, só conta casos engraçados e só toca música bonita. Eu contei isso pro Mestre Libório carpinteiro, e, ele me disse que depende da marca do rádio. Rádio de marca vagabunda é muito mentiroso e só toca porcaria. O meu foi meu neto quem enviou de São Paulo, é rádio do bom”, concluiu sorrindo. Ao anoitecer, levantou-se de seu banco tendo o cuidado de não esquecer o querido radinho, o qual guardou carinhosamente, em um saco de lona que levava a tiracolo, dizendo:

“É hora de ir pra casa, pois, quando escurece, isso aqui fica cheio de alma penada”!

Quando alguém o questionava, afirmando que era preciso temer os vivos e não os mortos, ele rebatia:

“Os vivos? Dos vivos, eu não tenho um pingo de medo! Eu tenho medo mesmo é dos mortos. Os vivos que se metem a besta comigo, eu corto no facão! Mas, quem já morreu não morre duas vezes. Deus me livre! Com alma penada eu não me meto! Até amanhã”.

Carlos Éden Meira é jornalista e cartunista – DRT 1161

domingo, 27 de Julho de 2008

quarta-feira, 9 de Julho de 2008

NO RITMO DO “COMPASSO” E DA BANDINHA

A “Furiosa”, como era apelidada a banda “Amantes da Lira” nos anos 50, ficava na porta da igreja, aguardando o final da missa festiva de Santo Antonio, com seus músicos de fardas lavadas e bem passadas a ferro, no capricho, à altura da ocasião. Nós meninos, admiradores da bandinha, ficávamos rondando os músicos, olhando os instrumentos metálicos, brilhantes, ansiosos para que a missa terminasse logo, para ver a “Furiosa” entrar em formação e sair marchando, descendo a Praça da Matriz, “atacando” algum dobrado.

Curiosos, perguntávamos coisas aos músicos a respeito de cada instrumento, resultando num barulho de vozes infantis a perturbar o solene evento, chamando a atenção do Balbino, assíduo freqüentador de missas, na sua indefectível farda de “general” com o quepe, o casaco verde-oliva cheio de medalhas feitas de latão, fitas coloridas e outros enfeites, que algumas senhoras caridosas da cidade confeccionavam, conhecedoras da mania de militar do “Compasso”, (apelido que o Balbino detestava), inclusive a farda, cujas calças nem sempre combinavam com o casaco, sendo às vezes vermelhas ou de qualquer outra cor, com um friso lateral de pano de cor diferente, que descia ao longo das pernas.

Na igreja, ele era uma espécie de vigia voluntário, repreendendo a garotada quando alguém falava alto ou fazia alguma traquinagem. Nessas horas, começava a tremer, balançando a cabeça nervosamente, fazendo sinal de silêncio com o dedo nos lábios. Nas mãos, tinha um anel em cada dedo. Eram anéis de brinquedo ou velhos anéis sem valor que ganhava de alguém. Quando a missa terminava, lá íamos nós alegres, marchando atrás da banda, tendo à nossa frente Balbino, todo sério, solene, batendo os pés no chão com força. A molecada da rua ao vê-lo marchando, gritava: “Compasso”! Nesses momentos Balbino perdia a postura, e, lançando mão de um pequeno porrete que levava sempre debaixo do braço, largava a marcha e saía correndo atrás dos abusados. Tal “desempenho”, Balbino mantinha também nos desfiles do Sete de Setembro, marchando atrás do TG, ou nos espaços entre as turmas de um colégio e outro, com seu “casaco de general, suas calças vermelhas e os dedos cheios de anéis”. Isto nos lembra alguma coisa?

Coincidência ou não, a indumentária de Balbino assemelhava-se bastante a uma figura descrita em “Vapor Barato”, do poeta jequieense Waly Salomão, o que leva algumas pessoas a acreditarem que tal imagem registrada no consciente ou no subconsciente, tenha servido como uma fonte de inspiração para o poeta. Se assim não foi, nota-se entretanto, que o lado “folclórico” da coisa parece agradar a muitos jequieenses, que acham interessante imaginar a figura de Balbino, mesmo de uma maneira implícita, aparecendo numa famosa obra de Waly.

quarta-feira, 2 de Julho de 2008

Devido aos diversos compromissos assumidos nesse mês de Junho, deixei de atualizar o blog. Peço desculpas aos meus possíveis leitores pela ausência.

Carlos Eden.

A ANTIGA MAGIA DO CINEMA E DAS “HQ” – Por Carlos Éden Meira


Antes e depois da sessão, havia uma verdadeira “bolsa de valores” de gibis, (histórias em quadrinhos - HQ) nas portas dos cinemas, onde a garotada vendia e trocava revistinhas de HQ, as quais nas décadas de 50 e 60 eram como se fosse um tipo de “cinema portátil”, pois, muitas delas reproduziam os filmes da época, estampando em suas capas e páginas, desenhos ou fotos dos ídolos da galera. A televisão ainda não havia chegado por aqui, então o gibi é que era o nosso “cinema em casa”, e, não era nada fácil adquiri-lo, pois, nem sempre tínhamos dinheiro disponível para comprar, além de haver uma severa vigilância de pais e professores, que consideravam os gibis uma espécie de “má companhia”, para os meninos.

Gibis de cowboys e super-heróis eram sempre os mais valorizados, devido principalmente aos seriados cinematográficos, cujos heróis eram os mesmos dos gibis. Os seriados eram produções em preto e branco, dos anos 30 ou 40, divididos em episódios que eram exibidos após o principal filme, das matinês de domingo. Para a maioria da turminha, pouco importava qual filme estivesse passando na matinê, desde que o seriado fosse um daqueles, com seus heróis preferidos. Se o filme fosse do mesmo nível, aí o cinema se tornava pequeno para comportar a multidão de garotos a assoviar e gritar durante toda a sessão. Muitos conseguiam seus ingressos, vendendo gibis na porta do cinema.

Numa época em que não havia TV, DVD, videogames ou internet, a emoção de uma sessão de cinema era simplesmente mágica. Ao apagar das luzes, surgiam na tela as imagens de ídolos dos quais, só se conheciam as vozes no rádio, ou as fotos em jornais e revistas. Era emocionante ouvir e ver nas chamadas “chanchadas da Atlântida”, os cantores e cantoras da Música Popular Brasileira, ali na tela cantando os sucessos da época, inclusive as marchinhas de carnaval mais tocadas no momento. Ou os musicais norte-americanos, onde se viam as grandes orquestras de jazz e seus vocalistas famosos, muitos dos quais eram também atores e atrizes importantes. Havia ainda a magia dos desenhos animados coloridos, que impressionaram gerações de cartunistas, o realismo do cinema francês e italiano que influenciaram cineastas e intelectuais brasileiros, surgindo daí o “Cinema Novo”.

Hoje em dia, a mídia televisiva nos bombardeia diariamente com imagens diversas, tirando assim todo o glamour que a imagem cinematográfica nos proporcionava nos áureos tempos da sétima arte. Tenta-se hoje, em salas de exibição nos shopping centers, recuperar o velho prestígio do cinema, através de superproduções recheadas de efeitos especiais, porém, apesar de algumas produções dignas de nota, a magia do cinema nunca mais será a mesma. Os bons gibis praticamente desapareceram das bancas de revista. São hoje publicados em formato de livro ou álbuns caros, ocupando um novo espaço, em livrarias. Tornaram-se publicações sofisticadas, com trabalhos gráficos de alto nível como as chamadas “graphic novels”, produzidas por grandes nomes das histórias em quadrinhos nacionais e internacionais, publicando inclusive, clássicos da literatura.