Quarta-feira, 2 de Julho de 2008
Carlos Eden.
A ANTIGA MAGIA DO CINEMA E DAS “HQ” – Por Carlos Éden Meira
Antes e depois da sessão, havia uma verdadeira “bolsa de valores” de gibis, (histórias em quadrinhos - HQ) nas portas dos cinemas, onde a garotada vendia e trocava revistinhas de HQ, as quais nas décadas de 50 e 60 eram como se fosse um tipo de “cinema portátil”, pois, muitas delas reproduziam os filmes da época, estampando em suas capas e páginas, desenhos ou fotos dos ídolos da galera. A televisão ainda não havia chegado por aqui, então o gibi é que era o nosso “cinema em casa”, e, não era nada fácil adquiri-lo, pois, nem sempre tínhamos dinheiro disponível para comprar, além de haver uma severa vigilância de pais e professores, que consideravam os gibis uma espécie de “má companhia”, para os meninos.
Gibis de cowboys e super-heróis eram sempre os mais valorizados, devido principalmente aos seriados cinematográficos, cujos heróis eram os mesmos dos gibis. Os seriados eram produções em preto e branco, dos anos 30 ou 40, divididos em episódios que eram exibidos após o principal filme, das matinês de domingo. Para a maioria da turminha, pouco importava qual filme estivesse passando na matinê, desde que o seriado fosse um daqueles, com seus heróis preferidos. Se o filme fosse do mesmo nível, aí o cinema se tornava pequeno para comportar a multidão de garotos a assoviar e gritar durante toda a sessão. Muitos conseguiam seus ingressos, vendendo gibis na porta do cinema.
Numa época em que não havia TV, DVD, videogames ou internet, a emoção de uma sessão de cinema era simplesmente mágica. Ao apagar das luzes, surgiam na tela as imagens de ídolos dos quais, só se conheciam as vozes no rádio, ou as fotos em jornais e revistas. Era emocionante ouvir e ver nas chamadas “chanchadas da Atlântida”, os cantores e cantoras da Música Popular Brasileira, ali na tela cantando os sucessos da época, inclusive as marchinhas de carnaval mais tocadas no momento. Ou os musicais norte-americanos, onde se viam as grandes orquestras de jazz e seus vocalistas famosos, muitos dos quais eram também atores e atrizes importantes. Havia ainda a magia dos desenhos animados coloridos, que impressionaram gerações de cartunistas, o realismo do cinema francês e italiano que influenciaram cineastas e intelectuais brasileiros, surgindo daí o “Cinema Novo”.
Hoje em dia, a mídia televisiva nos bombardeia diariamente com imagens diversas, tirando assim todo o glamour que a imagem cinematográfica nos proporcionava nos áureos tempos da sétima arte. Tenta-se hoje, em salas de exibição nos shopping centers, recuperar o velho prestígio do cinema, através de superproduções recheadas de efeitos especiais, porém, apesar de algumas produções dignas de nota, a magia do cinema nunca mais será a mesma. Os bons gibis praticamente desapareceram das bancas de revista. São hoje publicados em formato de livro ou álbuns caros, ocupando um novo espaço,
Quarta-feira, 21 de Maio de 2008
Missão cumprida
Tranqüillo Ribas fez, sabe-se lá por quais motivos, um acordo no mínimo insólito com sua irmã D. Adamantina Ribas: quando um dos dois morresse, o sobrevivente ficava na obrigação de fornecer o caixão.
Descendente de família tradicional da cidade, vaidoso de suas origens, Tranqüillo Ribas era dessas pessoas de temperamento exaltado, que falam muito com voz possante, e que não admitem ser contrariadas nas mínimas coisas. Ou seja, tranqüilidade, só no nome.
Passaram-se alguns anos, e, tendo mudado para Salvador por motivo de ordem profissional, (era formado em Ciências Contábeis) – Tranqüillo lembrava-se sempre da promessa feita à irmã conforme o acordo, achando sempre que ela é quem teria de cumprir sua parte, já que era alguns anos mais nova do que ele.
- Ora, quem “vai” primeiro sou eu. – dizia sempre.
Um dia, contrariando suas expectativas, um telefonema interurbano vindo do interior, deu a Tranquillo Ribas a certeza de que ele é quem teria de cumprir a sua parte no trato. O telefonema de um parente, dizia que se ele quisesse ver a irmã viva, teria que ir o mais breve possível, pois a mesma estava “nas últimas”.
Triste, chocado e aborrecido, Tranquillo lembrando-se do acordo, achou que quanto mais cedo providenciasse a compra do caixão, mais rápido cumpriria a sua parte no trato, portanto, resolveu levar o objeto que comprou no mesmo dia da viagem, transportando-o amarrado no bagageiro de sua “Rural”, dirigindo-se a sua cidade natal no interior, onde esperava encontrar a irmã já morta, àquela altura.
Após uma estressante viagem desviando de buracos, diminuindo a marcha para contornar verdadeiras “crateras” ao longo da rodovia, Tranquillo Ribas chegou à cidade, dirigindo-se imediatamente para a casa da irmã.
Logo no começo da rua, estranhou não ver nenhum movimento em direção à velha casa da família, onde morava D. Adamantina Ribas. Nada que denunciasse a existência de algum velório por ali. Deduziu então - já enterraram!
Parou a rural na porta da casa que silenciosa, permanecia fechada, tendo porém, as luzes acesas na sala de visitas, já que Tranquillo chegara no final daquela tarde triste, sentindo-se culpado por não ter chegado a tempo de ver a irmã no seu leito de morte, e, não ter cumprido sua parte no acordo, Tranquillo Ribas tocou a campainha.
Aberta a porta, Tranquillo levou um choque. D. Adamantina Ribas, forte, saudável e sorridente, estava bem ali na sua frente. Achou-a até mais bem disposta do que antes.
- M-Mas, você não morreu?? – perguntou surpreso.
- Eu? Sangue de Cristo tem poder! Vire essa boca pra lá! – respondeu D. Adamantina.
- Mas eu recebi um telefonema em Salvador, dizendo que você não passava de hoje!
- Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem. O que eu tive foi uma gripe forte, mas já passou! E você, como vai?
- Eu, - disse Tranquillo, nada tranqüilo – até ontem, estava bem. Agora, depois de levar um choque com a notícia de suas “últimas horas de vida”, depois de me estressar e quase me matar, nessas estradas miseráveis para vir até aqui, estou péssimo!
- E tem mais – continuou, visivelmente aborrecido – minha parte no acordo está cumprida!
E saiu porta a fora, para retornar depois arrastando o caixão que colocou no meio da sala, dizendo para a irmã boquiaberta:
- Aí está, não devo mais nada. Já comprei, tá aí, agora você guarda em algum lugar por aí. Quando “chegar seu dia”, já cumpri minha parte no trato.
E tornou a sair, batendo a porta da rua, entrando na “Rural” e foi-se, deixando D. Adamantina perplexa no meio da sala.
Nota: Os nomes das pessoas citadas em “Missão cumprida” são frutos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes de pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
O ESPINHEIRO MAL-ASSOMBRADO
“O ESPINHEIRO MAL-ASSOMBRADO” – Por Carlos Éden Meira
Dag morava em nossa rua, era “caçador de fim de semana” e contador de “causos”, (era como ele mesmo denominava suas histórias). Uma das boas histórias do Dag, das mais infames e que dizem que ele contou é a do “Espinheiro Mal - Assombrado”. O pai dele tinha uma antiga vitrola, na qual rodavam de preferência, discos de Luiz Gonzaga. O Dag contou que das músicas do Gonzagão, a que ele mais ouvia era “Juazeiro”. Acontece que ele só ficava satisfeito, após ouvir “Juazeiro” umas duzentas vezes por dia, o que fez com que seu pai já a beira de um colapso nervoso, apanhasse o disco e num acesso de ódio, atirasse a peça no quintal da casa, onde existiam uns arbustos cheios de espinhos, espatifando o disco de encontro ao espinheiro.
Uma noite de inverno, o vento uivava no telhado da casa, fazendo com que Dag, não conseguindo dormir, passasse a prestar atenção aos ruídos noturnos. Foi então que um som diferente gelou-lhe a espinha. Era um gemido misturado ao uivar do vento: ai, ai, ai... Aterrorizado, acordou os pais os irmãos e até os vizinhos que também assustados, ouviam o gemido: ai, ai, ai... O barulho vinha do quintal, para os lados do espinheiro, mas, não havia ninguém lá. Só os arbustos cheios de espinhos. Era assombração! No dia seguinte, Dag intrigado foi ao quintal observar o local de onde vinham os gemidos, e, após minucioso exame, chegou a uma conclusão a qual comprovaria, naquela noite. Tarde da noite, atento aos ruídos, principalmente do vento que se tornava mais intenso naquele horário, foi ao quintal com uma lanterna, enquanto ouvia novamente os gemidos: ai, ai, ai... Chegando ao espinheiro, Dag decifrou como ele havia deduzido, o mistério do “Espinheiro Mal - Assombrado”.
Um dos pedaços do disco de Luiz Gonzaga, justamente a parte onde Gonzagão cantava “ai Juazeiro, ai Juazeiro”, ficara preso entre os arbustos. Como era um pedaço muito pequeno, ficara só a parte do “ai” sem o “Juazeiro”. Um espinho encaixado no sulco sonoro do pedaço de disco, balançado pelo vento, repetia só aquele trecho: ai, ai, ai... E o mistério foi desvendado!
Outra de matar é a do filhote de papagaio. Estando Dag numa de suas “famosas” caçadas, encontrou um filhote de papagaio com a asa quebrada. Utilizando o seu inseparável estojo de pronto-socorro, Dag fez um belo curativo na asa do papagaio, o qual se demonstrou muito agradecido. Só não disse “muito obrigado”, porque, conforme achava ele, sendo o bichinho ainda um filhote, não sabia falar. Colocou-o de volta num ninho que achou ali por perto, e foi-se embora. Muitos anos depois, estando Dag de volta a aquele mesmo local, junto com um grupo de amigos caçadores, todos sentados no chão para o almoço, menos Dag que permaneceu de pé, quando ouviram uma algazarra de aves empoleiradas numa árvore, ali por perto. Era um bando de papagaios adultos, cujo líder com um velho esparadrapo na asa, sobrevoou o grupo de caçadores, e disse bem alto:
- Os outros eu não conheço, mas, o que está de pé é Seu Dag!
Não sei se tais histórias cretinas têm autoria de algum humorista conhecido. Só sei que por aqui, diziam que aconteciam com Dag.



