Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

SINAL DOS TEMPOS


Não levei muito tempo acreditando em Papai Noel. Acho que tinha uns quatro anos de idade, quando me disseram que o tal “bom velhinho” era “de mentirinha”, e que representava os pais das crianças que eram realmente, quem davam os presentes. Muitos pais daquela época achavam que quanto mais cedo melhor, para não mais iludir as crianças com certas fantasias. Hoje, os psicólogos acham que a fantasia é naturalmente saudável, e faz parte de uma determinada fase infantil que obviamente, tende a desaparecer à medida que a criança vai crescendo, dentro da realidade de seu próprio meio. Numa certa ocasião, tive a oportunidade de observar uma cena emblemática, cômica no seu aspecto cênico e triste no que se refere ao sentido social e educacional, demonstrando o que a realidade de cada um pode fazer, com o chamado “Espírito do Natal”.

Há algum tempo, num tórrido dia de dezembro já quase ao meio-dia, debaixo de um sol daqueles de fritar ovo no asfalto, quando ao voltar do trabalho, vi descendo a Av. Rio Branco passando por baixo do Viaduto Daniel Andrade, um velhíssimo caminhão basculante (caçamba) da Prefeitura, desses que transportam entulho. Levava na carroceria ainda suja de terra, um sujeito vestido de Papai Noel, com as roupas folgadas tipo “engole ele paletó que o finado era maior”, acompanhado por dois músicos, um tocando um tambor (caixa), e o outro, um trompete.

Tocavam a velha marchinha “Boas Festas” de Assis Valente, como sempre: “anoiteceu, o sino gemeu”... Suados, famintos e cansados dentro daquela carroceria de aço, suja e terrivelmente aquecida pelo sol, o coitado do raquítico Papai Noel com aquela roupa quente, o suor escorrendo incomodamente por baixo da roupa, pois o tecido era daqueles que não transpiram, o sol inclemente, uma tortura. Exatamente quando veículo passava sob a ponte do viaduto, alguns garotos de sete ou oito anos de idade, e que brincavam sobre a ponte, ao ver o caminhão passando, gritaram:

- Papai Noel, viado!

O Papai Noel já “virado no cabrunco”, no ato, esticou a mão fechada só com o dedo médio para cima, naquele “clássico” gesto, gritando:

- Aqui pra tu, seu “f” da “p”!

A cena, por um momento me fez rir, pois foi ironicamente cômica, entretanto, me fez refletir quanto ao aspecto emblemático que ela representou: um pobre cidadão desempregado, “pegando um bico” de Papai Noel para arranjar uns trocados, sendo ridicularizado por crianças também pobres, cuja realidade é bem distante das efusividades natalinas das crianças cujos pais podem se dar ao luxo de alimentar suas fantasias, e que podem freqüentar “shopping centers”, ganhar belos presentes “ofertados” por um gordo Papai Noel bem vestido, sentado em um luminoso trono dourado. Creio que se o “Espírito do Natal” fosse mais voltado para o seu verdadeiro significado, sem essa exploração consumista imposta pelo capitalismo selvagem, onde uns têm tudo e outros não têm nada, tais cenas ridículas talvez não acontecessem.


A HORA DO VAMPIRO


Até hoje, não sei qual o nome de batismo da “figura”. Só sei que era um maluco conhecido na cidade, e ele próprio nos contava algumas peripécias de sua juventude, quando ficávamos reunidos na Praça Ruy Barbosa à noite, junto às cadeiras dos engraxates a contar piadas, a fazer resenhas com a última mancada de alguém da turma, a comentar filmes e novos sucessos musicais, ele aparecia por ali e se envolvia na conversa. Alguém logo se lembrava de pedir a ele para que contasse uma de suas maluquices. Lembro-me de uma vez em que contou que quando ele era mais jovem, era fã do cowboy “Durango Kid”, personagem cinematográfico e dos quadrinhos dos anos 40 e 50, o que o levou ao cúmulo de providenciar uma indumentária semelhante ao do seu ídolo, ou seja: camisa preta de manga comprida e calças também pretas, um lenço preto cobrindo o nariz e a boca, um chapelão de cowboy também preto e botas, além de uma cartucheira com dois revólveres de brinquedo. Não se contentando somente com a vestimenta, quis também imitar a performance de Durango Kid nas telas, quando o personagem ao perseguir bandidos, subia em telhados, e dali saltava sobre o facínora que passava embaixo ou sobre seu próprio cavalo, para continuar a perseguição. Para tanto, o nosso “personagem” dirigiu-se a um cenário que ele achou apropriado para sua atuação, o qual era um brega de última categoria da cidade, conhecido como “Os Dez Quartos”.

Ali chegando, todo caracterizado de Durango Kid, tratou de subir no primeiro telhado que encontrou, fingindo estar perseguindo algum marginal. Foi aí que veio o desastre: pisando numa parte do telhado onde o madeiramento era antigo e fraco, ele sentiu o teto ceder sob seus pés, e, quando deu conta de si, tinha caído em cima de uma cama onde um casal se “divertia”. Tomados de espanto, os “pombinhos” milagrosamente ilesos, deram uma sova no “Durango” que saiu dali em carreira desesperada, “levando a porta dos fundos na caixa dos peitos”, conforme seu relato. Quando no começo dos anos 60 foi exibido no Cine Bonfim o filme “O Vampiro da Noite” (Horror of Dracula), com Christopher Lee, houve na cidade uma espécie de paranóia entre os garotos e garotas ou mesmo entre alguns adultos crédulos, em relação a vampiros. Ele então, não perdeu tempo e passou a dar uma de vampiro nas esquinas escuras da cidade, soltando berros e grunhidos apavorantes, botando todo mundo pra correr. Fui testemunha de uma dessas “atuações”, quando precisando tirar uma cópia da certidão de nascimento, o encontrei muito irritado na porta do cartório apinhado de gente, numa fila desorganizada. “Tô aqui desde oito horas da manhã pra tirar um documento, e taí essa bagunça”! Dizia ele, colérico. Um gaiato que estava por ali teve então uma idéia maluca que acabou nos sendo útil.

Você se esqueceu de que é vampiro?” perguntou o rapaz, dirigindo-se ao maníaco. “Rapaz, é mesmo!” respondeu ele caminhando para sala do cartório, onde, chegando à porta, soltou um pavoroso berro fazendo caretas horrorosas, com as mãos abertas crispadas como garras, provocando uma reação de pânico naquele amontoado de gente. Assustados, correram todos porta a fora, deixando a fila vazia. Ele então, calmamente, dirigiu-se ao balcão do cartório e tirou o seu documento. Eu aproveitei o embalo, e tirei a cópia da minha certidão. Na saída, o maluco (?) agradeceu ao rapaz pela “boa idéia”, tratando de cair fora, pois, algumas pessoas refeitas do susto ameaçavam um “quebra-pau”, pra cima dele.

O PORRETE ATRÁS DA PORTA

Houve um tempo, em que os estabelecimentos comerciais nas pequenas cidades do interior eram as chamadas vendas, lugares onde era vendido todo tipo de mercadoria. Nas vendas, comprava-se da carne seca salgada, ao querosene usado para abastecer os candeeiros que iluminavam a maioria das casas, já que a luz elétrica fornecida pela prefeitura, gerada por um motor a óleo, era desligada às dez horas da noite. Nas vendas, reuniam-se ao cair da tarde, os trabalhadores que antes de retornarem às suas casas, ali passavam para um bate-papo e tomar um “rabo de galo”, aperitivo composto de uma dose de vermute “ferrado” (misturado) com cachaça. Nos anos 50, ainda não havia por aqui os supermercados, e era nas vendas que a maioria da população comprava grande parte das mercadorias. Alguns desses pequenos pontos comerciais hoje ainda existem, porém, com o nome de mercadinhos ou barzinhos.
Lembro-me de que em quase todas as vendas que conheci, havia um grande pedaço de madeira, um “porrete” guardado atrás da porta, o que certa vez, despertou minha curiosidade, tendo perguntado ao proprietário de uma “vendinha” que havia em frente à casa de minha avó, para que servia aquele pedaço de pau, ali guardado. “Aquilo é madeira de dar em doido”, respondeu ele. Ora, numa época em que nas cidades do interior, ainda não era nem imaginada a existência de albergues, asilos, hospícios ou de quaisquer entidades semelhantes, a permanência de doentes mentais, muitos deles violentos, perambulando pelas ruas, era constante. E era principalmente nas vendas que eles iam pedir pão, farinha ou água.
Os mais calmos, quando não eram atendidos, respondiam com um resmungo qualquer, e saiam. Entretanto, havia os violentos que reagiam furiosamente, quando o sovina dono da venda ou o balconista, não lhes davam o que pediam. Aí, vinha o “tratamento de choque”, efetuado através da tal madeira guardada atrás da porta, que era imediatamente aplicada no “impaciente”, o qual cuidava de cair fora, já que ele podia ser doido, mas, não era besta. Isto era visto com a maior naturalidade por muita gente, naquela época. Hoje em dia, felizmente, foram criadas entidades com a função específica de dar assistência às pessoas com distúrbios mentais, inclusive medicamentos e tratamentos modernos, que deveriam estar disponíveis nos órgãos públicos de saúde. No entanto, com o crescimento cada vez maior de desesperados usuários de drogas pesadas, as pessoas estão agora sendo assaltadas nas portas de suas casas, ou em seus estabelecimentos comerciais. Algumas são até baleadas durante os assaltos. O velho “porrete atrás da porta”, já não serve como instrumento de defesa. Não pode competir com um revólver.


Sábado, 30 de Janeiro de 2010

A MÚSICA QUE MUDOU COSTUMES
Por Carlos Éden Meira

Até meados dos anos 50, ainda não havia por aqui, nenhum movimento cultural que representasse especificamente os anseios de jovens interessados em absorver as mudanças de costumes, que começavam a acontecer no resto do mundo. Consequentemente não havia moda jovem, o que obrigava as garotas e os rapazes da época, a se vestir e se comportar como seus pais, em todos os sentidos. Aqui em Jequié as festas eram animadas por orquestras de baile, sendo a Orquestra Copacabana a mais conhecida, e, os artistas nacionais famosos, quando se apresentavam nos palcos dos cinemas, eram acompanhados pelos chamados “regionais” formados por violonistas locais como Satu, Jonatas Pithon, Gemi Saback, Fernando “Perninha”, dentre outros. Ouvia-se muito no rádio ou nos serviços de alto-falantes, boleros, sambas-canções e a alegre música de Luiz Gonzaga, que era um verdadeiro ídolo da garotada nordestina da época, principalmente durante o período das festas juninas.
Entretanto, através do rádio e do cinema, começava-se a acompanhar as novas tendências musicais influenciadas pelo rhythm and blues e a country music, dando origem a um novo som que representava o que a imprensa chamava de juventude transviada. Era a inevitável explosão do rock and roll que assolava o mundo. Paralelamente a essa invasão do rock forçada comercialmente pela mídia americana, jovens da elite intelectual carioca, amantes inveterados de jazz, mas que por serem de famílias da classe média alta, estudavam música e tinham estreito relacionamento com grandes músicos e poetas nacionais, mostraram que para ser moderno não era preciso necessariamente, gostar de rock nem ser da juventude transviada. Assim, surgiu o movimento musical que se convencionou chamar de bossa nova, onde se mesclava de forma “antropofágica” elementos do jazz, letras bem elaboradas, destacando-se aí a grande parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e uma batida revolucionária do violão, criada por João Gilberto. A bossa nova foi, inegavelmente, o melhor momento da música popular brasileira dos últimos tempos. No final dos anos 50, surgiam os primeiros ídolos do rock brasileiro da pré-jovem guarda representados por Cely Campello, Sergio Murillo, Demétrius e outros. Em meados dos anos sessenta, liderada por Roberto e Erasmo Carlos, veio a explosão da jovem guarda, com suas letras simples e músicas de acordes básicos.
Aqui em Jequié, o maior representante desses movimentos culturais, (bossa nova e jovem guarda) foi o conjunto BOSSA SEIS, formado por Jaime Luna (acordeon e piano), Benedito Sena (bateria), Nilton Muniz (contrabaixo), Judimar Ribeiro (guitarra líder), Mario Alves (guitarra base) Edson (guitarra havaiana) e mais tarde, Heron (saxofone). Surgido no começo dos anos sessenta com o nome de ATALAIA, o Bossa Seis começou tocando bossa nova, mas, teve que seguir as tendências impostas pela mídia através da beatlemania e da jovem guarda, e passou a tocar rock. Naquele tempo, nenhuma banda seria contratada para tocar em bailes se não tocasse músicas de Roberto Carlos ou as versões de músicas dos Beatles de Renato e seus Blue Caps, legítimos representantes da nova onda imposta pela mídia. Alguns jovens “rockeiros radicais” de hoje podem achar estranho, mas, aquilo que Roberto e Renato tocavam era rock. Um rockzinho romântico e colegial, mas, era rock.
O Bossa Seis foi considerado o melhor conjunto da Bahia em sua melhor fase, e, por sua influência, surgiram em Jequié os grupos THE BIRDS, formado por César Almeida (contrabaixo), Getulio Jucá (bateria), Carlos Éden (guitarra solo), Paulo Krupa (guitarra base) e Ivan (saxofone), e o Conjunto LA BAMBA de João Faustino que mais tarde viria a ser o EXTRA SOM do qual inclusive, participou mais tarde, o famoso artista baiano Luiz Caldas, ainda desconhecido, em princípio de carreira. Com a explosão do movimento tropicalista liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, alguns componentes do Bossa Seis e dos Byrds se fundiram dando origem ao AMERICAN HIPPIES, embalados pelas novas vertentes das artes, influenciadas pelo psicodelismo tropicalista, tendo mais tarde se transformado no grupo Alfa.
Daí para frente, formaram-se diversos conjuntos como Os Cisnes que mais tarde viria a ser EMBALO QUATRO, cuja formação mais conhecida foi com Aroldo Vieira, Roque Lui e Valfredo Dórea (vocal), Tõe Gatinha (Guitarra base), Jorge Lima, depois Zé Rodrigues (guitarra solo), Roberto “Caveira” (contrabaixo) Antônio Néri (órgão) e Daniel “Boca” (bateria). O grupo OS ÍMPARES teve na sua formação original, Binho Vieira (guitarra solo), José Pinheiro (contrabaixo), Corbulon Rocha (guitarra base) e Reinaldo Falcão (bateria). No final dos anos 60 surgiram O KINTA DIMENSÃO, com Reginaldo (teclados) Damião (bateria) Tõe Gatinha (contrabaixo), Gilberto Gaso (guitarra solo), Reinaldo Pinheiro (guitarra base) e Betulino (guitarra base), além do CÁPITULO 5º com Aroldo Vieira (bateria e voca) Gilberto Gaso, depois Tiso (guitarra solo ),Cleber Ferreira (guitarra base), Jocéli, depois Paulo Krupa (contrabaixo) e Melchiades (Escaleta). Surgiram então, muitos outros como Os Fondas, que tiveram curta duração. Um bom grupo foi o CLARPT que mais tarde viria ser o ARPÃO, tocando músicas de autoria própria, formado por Rafael Vieira, Luiz Meira, Charles Meira e Thomaz Meira, com a participação dos compositores Pedro Nogueira e Val Rodrigues. O GRUPO CÉU com a participação do cantor e compositor Carlinhos, e de Rita Rodrigues, foi um destaque no meio musical jequieense, assim como A BANDA DO LESTE, grupo musical organizado por César (Zama) Almeida. Vale aqui ressaltar a participação de outros artistas que atuaram no meio musical de Jequié, tais como Marcos Sanches, Pithon, Marcos Morbeck, Jocélio, Carmélio, Caramelo e muitos outros.

Atualmente, a coisa aqui em Jequié está mais para os músicos que fazem “carreira solo”. Artistas como Rei de Jesus, Binha Morbeck, Kátia Morbeck e Jairo, Marcos Belchote, Suely Morbeck, Zezinho Magalhães (que faz parte do GRUPO MUSICAL COROAS), Iracema Miller, Ailton dos Anjos dentre outros, são bastante requisitados pelos barzinhos e têm grande número de admiradores na cidade, assim como os artistas João Mendes, Lynno Santos e ROSY & BANDA. Têm também se destacado as bandas de reggae como MANDACAROOTS e as de forró como LÉ-KUM-CRÉ, CANGAIA DE JEGUE, FLOR DE BANANEIRA, entre outras. No que se refere ao rock, temos Venceslau “Bilaw”, Shau e os ANÉIS DE SATURNO, Iracema Miller e Musaé, dentre outros.
O artista Nuno Menezes tem sido muito elogiado pelos fans de MPB, assim como a cantora Lane Quinto. Um trabalho musical de alto nível vem sendo apresentado pelo trio “ARGUIDÁ”, formado pelo baterista Bené Sena, seu filho pianista Maurílio e o baixista Allan Borges. O grupo tem um repertório recheado do que há de melhor em clássicos da bossa nova e chorinhos, tendo se apresentado em diversos eventos culturais da cidade.
OS "CAPACHILDOS"

Carlos Éden Meira*


A subserviência é uma das mais indignas, mais ridículas, mais vergonhosas das condições humanas. O indivíduo subserviente não tem respeito por si mesmo, e, quando demonstra respeito por alguém é meramente, um puro ato de bajulação. Os subservientes quando estão entre pessoas influentes, fingem não ver velhos conhecidos que porventura estejam ali por perto, se esses velhos conhecidos forem pessoas cuja importância naquele momento, está distante dos seus asquerosos interesses. Os subservientes ou capachildos são “moleques-de-recado” dos seus superiores, ouvem terríveis xingamentos e descomposturas de seus chefes na presença de outras pessoas, e ainda ficam sorrindo amarelo, com aquelas caras de “sinhá mariquinha cadê o frade”. Não têm caráter, não têm senso de ridículo, não são solidários com os problemas de sua própria classe social, pois, preferem cuidar dos interesses dos ricos dos quais lambem até as solas dos sapatos.
Dá náusea vê-los em ação num evento qualquer, a rir exageradamente das piadas mais ridículas, quando contadas por um de seus “ídolos superiores”, num grupo de conversas. Ficam inquietos, desesperados, quando veem uma câmera se aproximando, e procuram se posicionar o mais próximo possível daquele que em suas bajuladoras concepções, for o mais importante da roda. Com um sorriso idiota nos lábios, ficam olhando para todos os lados para ver se as demais pessoas presentes ao evento os veem ali entre as “celebridades”, sendo filmados. É o seu momento de “glória”!
Extremamente hipócritas, os capachildos se fazem de religiosos frequentando entidades religiosas diversas para bajular seus respectivos líderes, sempre visando mesquinhos interesses próprios. Na política, quase sempre se dão bem, pois, sem escrúpulos nem caráter, encontram aí o ambiente propício para pôr em prática o seu servilismo exacerbado. Incapazes de ideais mais elevados, seus anseios visam somente obter recursos para realizar seus ridículos sonhos de consumo, tentando imitar aos trancos e barrancos, o padrão de vida de seus superiores. No meio artístico e cultural, não têm opinião definida. Gostam daquilo que a mídia diz que é bom, ou daquilo que os seus superiores gostam, só para bajular. Em compensação, os capachildos não são radicais, pois, sua ideologia é puxar o saco de quem estiver “por cima”, não importa de qual partido político, de qual raça ou de qual religião. Justiça seja feita!

*Carlos Éden Meira - jornalista e cartunista – DRT 1161
RADINHO DE PILHA - Por Carlos Éden Meira*

Ele ficava ali, sentado horas a fio em um banco tosco talhado num pedaço de tronco, sob a sombra de uma velha gameleira. Barbas, sobrancelhas e cabelos alvos, destacavam-se da pele escura, queimada de sol e marcada por um emaranhado de rugas, assemelhando-se a uma figura esculpida em barro, com rachaduras provocadas pela exposição ao sol. Suas mãos calejadas por anos de trabalho duro, moviam-se com destreza no preparo do cigarrinho ”drobó”, a picar o fumo de corda, a cortar e alisar a palha com uma pequena faca bem amolada, que trazia sempre numa bainha de couro cru, presa ao cinto junto com o seu “isqueiro”, o qual consistia em uma ponta de chifre de boi, recheada com algodão, que se tornava em brasa ao contato com pequenas fagulhas ali lançadas cuidadosamente, ao atrito de duas pequenas pedras ou pedaços de metal. Para acender o cigarro, era preciso antes assoprar bastante o algodão, até se tornar em brasa viva, e ali encostar a ponta do cigarro.
Ao lado, seu inseparável “radinho de pilha”, sempre sintonizado em alguma emissora de São Paulo, cidade de onde recebera o radinho, enviado por um de seus netos que já havia tempos, para lá viajara em busca de um sonhado emprego, numa fábrica de biscoitos. Maravilha das maravilhas, o radinho tocava e cantava lindas músicas que falavam de saudades do sertão, que o emocionavam, e às vezes o faziam chorar. Ah, mas também contava casos engraçados e dava muita notícia interessante! “O compadre Quincas da Lagoa Branca tem um maior do que esse, mas, só toca música feia e só diz mentira”, afirmava ele. Se alguém perguntasse quais as mentiras do rádio do compadre, ele dizia revoltado:
“Pois não é que uma vez, o danado do rádio do compadre tava dizendo que os gringos tinham pisado na Lua? Onde já se viu mentira mais cabeluda do que essa? A lua é coisa de Deus e só quem pisa nela é São Jorge! E as músicas que tocava? Tinha um tal de roque, roque, roque! Parecia até rato roendo a parede! Meu radinho, não. Meu radinho é pequeno, mas, só fala a verdade, só conta casos engraçados e só toca música bonita. Eu contei isso pro Mestre Libório carpinteiro, e, ele me disse que depende da marca do rádio. Rádio de marca vagabunda é muito mentiroso e só toca porcaria. O meu foi meu neto quem enviou de São Paulo, é rádio do bom”, concluiu sorrindo. Ao anoitecer, levantou-se de seu banco tendo o cuidado de não esquecer o querido radinho, o qual guardou carinhosamente, em um saco de lona que levava a tiracolo, dizendo:
“É hora de ir pra casa, pois, quando escurece, isso aqui fica cheio de alma penada”!
Quando alguém o questionava, afirmando que era preciso temer os vivos e não os mortos, ele rebatia:
“Os vivos? Dos vivos, eu não tenho um pingo de medo! Eu tenho medo mesmo é dos mortos. Os vivos que se metem a besta comigo, eu corto no facão! Mas, quem já morreu não morre duas vezes. Deus me livre! Com alma penada eu não me meto! Até amanhã”.

Carlos Éden Meira é jornalista e cartunista – DRT 1161
EM JANELAS MIL

Por Carlos Éden Meira

Interneteando a noite
Por sites nunca antes navegados,
Abrindo portais, mouseando cliques,
Vai queimando neurônios.

Desconstruindo princípios,
Desencontrando fins,
Preso na web como inseto luminoso,
Vagalume vagabundo em viagem virtual.

Desplugado da vida real lá fora,
Conectado de corpo e alma em gigas e megas,
Dentro do mundo aberto em janelas mil,
Por onde voam mensagens orkutadas.

Digitalizando a vida,
Traz o mundo nas pontas dos dedos,
Salvando conceitos ou visualizando imagens.
A noite se foi, o dia surgiu e só o internauta não viu.