O CORPORATIVISMO
Carlos Éden Meira*
Toda sociedade bem organizada tende a criar instituições chamadas entidades de classe, onde seus membros trabalham pelo fortalecimento das diversas classes sociais que as compõem. Em princípio, tais entidades bem intencionadas, garantem a segurança institucional dos valores democráticos, éticos e morais da sociedade. Seja um clube, um partido político, uma entidade filantrópica ou religiosa, todos tem o objetivo comum de preservar os princípios básicos de uma saudável sociedade, democraticamente organizada.
Ocorre, entretanto, que interesses individuais dos representantes de cada classe, geram disputas entre os diversos grupos, muitas vezes movidos por influências políticas, levando seus afiliados a se proteger mutuamente, o que acaba se transformando numa prática na qual os membros de cada entidade, quando têm oportunidade de ocupar algum cargo público ou mesmo privado, procuram de alguma maneira, privilegiar seus companheiros. Inclusive, dependendo do poder e da influência da entidade, (agremiações políticas, por exemplo), conseguem até manter a salvo de punições, um membro que está sendo acusado de alguma irregularidade ou crime, ainda que o mesmo às vezes, seja culpado das acusações. Surge assim o corporativismo, um mal social que há séculos vem deteriorando os organismos das instituições, e que no Brasil, chegou às raias do absurdo no Congresso Nacional. Ali, o corporativismo vem entravando quaisquer tentativas de se fazer reformas políticas, que modifiquem a estrutura viciada do Poder Legislativo, onde a corrupção vem sendo constante. A maioria de seus membros cuida de defender entre si, seus interesses pessoais.
Ao longo da História mundial, as grandes revoluções modificaram em parte, a estrutura social dos países onde elas ocorreram, entretanto, o corporativismo surgiu entre os membros dos partidos e comitês revolucionários, usando da mesma prática de proteger e priorizar interesses, com justificativas tornadas incontestáveis, em nome dos ideais da revolução. Durante a revolução francesa, muita gente foi guilhotinada por não concordar com algumas atitudes abusivas, praticadas pelos comitês revolucionários. Os idealistas que acreditam em revoluções utópicas, onde deveriam prevalecer a liberdade, a igualdade e a fraternidade, ao perceber o corporativismo que acaba existindo entre os grupos que integram as lideranças revolucionárias, tornam-se os principais críticos da revolução que ajudaram a fazer. Ao criticar, passam a ser considerados dissidentes do novo regime, sendo presos, exilados, ou mesmo eliminados. O corporativismo é prejudicial à evolução de qualquer sistema político, pois, coloca em dúvida os princípios democráticos, e só faz aumentar a distância entre as classes sociais, fazendo crescer o número de excluídos gerando revolta, e, consequentemente, a violência.
*Carlos Éden Meira – jornalista e cartunista DRT 1161
sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
LEITE E MEL
Carlos Éden Meira*
Teté contava histórias. Eram longas histórias de magos, princesas e gigantes, ou trechos bíblicos que ela contava explicando cada coisa tão minuciosamente, que nós, crianças na época, “enxergávamos” as imagens em nossas mentes. Um dos meus irmãos dizia que Teté foi a nossa “primeira televisão”. Era nossa tia bisavó, ainda muito lúcida aos noventa e tantos anos de idade. Muito católica, seu quarto era uma verdadeira capela, com oratórios abarrotados de imagens de santos e castiçais; e nas paredes, quadros diversos com imagens sacras.
Quando a conheci, ela já não andava, passando o resto de sua vida presa a uma cama, sob os cuidados de minha avó e outras pessoas da família. Foi quem primeiro me falou de Céu e Inferno, descrevendo, na sua maneira detalhada, os horrores do fogo eterno e as delícias divinas do Céu. Ao falar do Inferno, descrevia em cenas dantescas o sofrimento infinito das almas pecadoras, queimando para sempre no fogo infernal, o que me enchia de pavor. Quando descrevia o Céu, citava um ambiente sagrado, cheio de anjos e santos, onde as boas almas passavam a eternidade rezando, adorando a Deus. Era um lugar onde corriam rios de leite e mel, únicos alimentos que por ali existiam, segundo a crença popular.
Apesar do medo do Inferno, aos oito anos de idade eu não me entusiasmava muito com essa descrição celeste, pois naquele Céu não havia brinquedos, doces, biscoitos, frutas, cinema com matinê aos domingos, fogos juninos (apesar de São João estar ali pertinho, já que ali era o Céu), não havia revistas em quadrinhos, banhos de rio, parquinho, circo e mais um monte de coisas maravilhosas, que nem sei mais. Leite e mel não eram, para mim, coisas de tanto agrado, e passar a eternidade rezando, também, não era nada atraente. Entretanto, era bem melhor do que o fogo eterno, é claro. Com o passar dos anos, muitos novos conceitos sobre Céu e Inferno me foram revelados por textos teológicos diversos, através de livros ou palestras, nos quais, também, raramente encontrava alguma coerência.
Maria Donatilla de Castro Meira Mousinho “Sinhá Titila” (Teté para os íntimos) morreu aos noventa e sete anos de idade, convicta em sua fé. Por isso, creio que ela, ao morrer, deve ter alcançado um Céu onde corriam rios de leite e mel, mais ou menos como ela acreditava, pois, para mim, Céu e Inferno estão dentro de cada um de nós, naquilo em que acreditamos. E nossa conduta terrena, nosso modo de viver, nossas atitudes, afinidades e relacionamentos, determinam nossa paz espiritual. A alegria, a harmonia, o amor, o respeito ao próximo, a capacidade de sentir o que há de bom na vida terrena devem prevalecer na nossa mente até o momento da morte ou até depois. O contrário de tudo isso é o Inferno.
*Carlos Éden Meira – jornalista e cartunista DRT 1161
Carlos Éden Meira*
Teté contava histórias. Eram longas histórias de magos, princesas e gigantes, ou trechos bíblicos que ela contava explicando cada coisa tão minuciosamente, que nós, crianças na época, “enxergávamos” as imagens em nossas mentes. Um dos meus irmãos dizia que Teté foi a nossa “primeira televisão”. Era nossa tia bisavó, ainda muito lúcida aos noventa e tantos anos de idade. Muito católica, seu quarto era uma verdadeira capela, com oratórios abarrotados de imagens de santos e castiçais; e nas paredes, quadros diversos com imagens sacras.
Quando a conheci, ela já não andava, passando o resto de sua vida presa a uma cama, sob os cuidados de minha avó e outras pessoas da família. Foi quem primeiro me falou de Céu e Inferno, descrevendo, na sua maneira detalhada, os horrores do fogo eterno e as delícias divinas do Céu. Ao falar do Inferno, descrevia em cenas dantescas o sofrimento infinito das almas pecadoras, queimando para sempre no fogo infernal, o que me enchia de pavor. Quando descrevia o Céu, citava um ambiente sagrado, cheio de anjos e santos, onde as boas almas passavam a eternidade rezando, adorando a Deus. Era um lugar onde corriam rios de leite e mel, únicos alimentos que por ali existiam, segundo a crença popular.
Apesar do medo do Inferno, aos oito anos de idade eu não me entusiasmava muito com essa descrição celeste, pois naquele Céu não havia brinquedos, doces, biscoitos, frutas, cinema com matinê aos domingos, fogos juninos (apesar de São João estar ali pertinho, já que ali era o Céu), não havia revistas em quadrinhos, banhos de rio, parquinho, circo e mais um monte de coisas maravilhosas, que nem sei mais. Leite e mel não eram, para mim, coisas de tanto agrado, e passar a eternidade rezando, também, não era nada atraente. Entretanto, era bem melhor do que o fogo eterno, é claro. Com o passar dos anos, muitos novos conceitos sobre Céu e Inferno me foram revelados por textos teológicos diversos, através de livros ou palestras, nos quais, também, raramente encontrava alguma coerência.
Maria Donatilla de Castro Meira Mousinho “Sinhá Titila” (Teté para os íntimos) morreu aos noventa e sete anos de idade, convicta em sua fé. Por isso, creio que ela, ao morrer, deve ter alcançado um Céu onde corriam rios de leite e mel, mais ou menos como ela acreditava, pois, para mim, Céu e Inferno estão dentro de cada um de nós, naquilo em que acreditamos. E nossa conduta terrena, nosso modo de viver, nossas atitudes, afinidades e relacionamentos, determinam nossa paz espiritual. A alegria, a harmonia, o amor, o respeito ao próximo, a capacidade de sentir o que há de bom na vida terrena devem prevalecer na nossa mente até o momento da morte ou até depois. O contrário de tudo isso é o Inferno.
*Carlos Éden Meira – jornalista e cartunista DRT 1161
FANATISMO E INTOLERÂNCIA
Carlos Éden Meira*
“Não concordo com nada do que dizes, mas, lutarei até a morte pelo teu direito de dizê-lo”. Esta frase cuja autoria é atribuída ao filósofo francês Voltaire, demonstra o enorme respeito que o grande pensador tinha pela liberdade de expressão. Numa sociedade politicamente evoluída, o direito de expressarmos nossas idéias, de protestar em alto e bom som contra aquilo que vai de encontro aos nossos princípios, e de sermos contestados por quem se opõe aos nossos ideais, é fundamental para o aperfeiçoamento de uma sociedade democrática.
Entretanto, quando se trata de política e religião, a tendência ao fanatismo de alguns militantes políticos e praticantes religiosos, tem gerado intolerâncias que vão de encontro ao pensamento de Voltaire. O fanatismo leva o indivíduo a uma visão radical e unilateral, em que qualquer argumento que a conteste torna-se nulo, surgindo daí ideologias monstruosas, como foi o caso do nazi-facismo que levou o mundo à mais sangrenta e destruidora de todas as guerras. Alguns líderes religiosos fanáticos, em diferentes culturas do mundo, levam ao pé da letra os textos sagrados de suas diversas religiões, interpretando-os cada um à sua maneira, e convencem milhões de pessoas a aceitá-los daquela forma radical e fundamentalista. Qualquer argumento que tente demonstrar uma interpretação mais moderada e esclarecedora, à luz de uma visão mais moderna, filosófica e científica da existência de Deus, é contestado pelos fanáticos de maneira assustadora. “É inspiração do demônio”, dizem eles.
Isto me fez lembrar do meu velho amigo e compadre, o engenheiro agrônomo Erotides Soares Neto, que ficava irritado e impaciente com os argumentos retrógrados de alguns religiosos fanáticos, que na tentativa de arrebanhá-lo para alguma de suas entidades, diziam coisas que ele, sendo uma pessoa esclarecida e muito dada à literatura de assuntos teológicos e científicos, não aceitava sob nenhuma hipótese. Certa vez numa dessas discussões, um fanático ameaçou Soares com o “fogo dos infernos”, devido às suas colocações que contestavam o pensamento radical do religioso. Soares então, já a beira de um colapso nervoso, aos berros, perguntou ao fanático:
- Me diga uma coisa, se eu seguir seus conceitos, quando eu morrer, vou ter que ir para o mesmo céu para o qual você também vai?
O religioso respondeu:
- É claro, você vai para o mesmo céu para o qual eu vou também!
Soares reagiu gritando:
- Eu não! Se eu tiver que ir para um céu cheio de gente chata e burra igual a você, eu prefiro ir pro inferno!
Na minha maneira de pensar, se existem céu e inferno, Soares Neto somente pelo fato de ter dado esta resposta ao chato fanático, merece o céu que é certamente, onde ele deve estar agora.
*Carlos Éden Meira - jornalista e cartunista – DRT 1161
Carlos Éden Meira*
“Não concordo com nada do que dizes, mas, lutarei até a morte pelo teu direito de dizê-lo”. Esta frase cuja autoria é atribuída ao filósofo francês Voltaire, demonstra o enorme respeito que o grande pensador tinha pela liberdade de expressão. Numa sociedade politicamente evoluída, o direito de expressarmos nossas idéias, de protestar em alto e bom som contra aquilo que vai de encontro aos nossos princípios, e de sermos contestados por quem se opõe aos nossos ideais, é fundamental para o aperfeiçoamento de uma sociedade democrática.
Entretanto, quando se trata de política e religião, a tendência ao fanatismo de alguns militantes políticos e praticantes religiosos, tem gerado intolerâncias que vão de encontro ao pensamento de Voltaire. O fanatismo leva o indivíduo a uma visão radical e unilateral, em que qualquer argumento que a conteste torna-se nulo, surgindo daí ideologias monstruosas, como foi o caso do nazi-facismo que levou o mundo à mais sangrenta e destruidora de todas as guerras. Alguns líderes religiosos fanáticos, em diferentes culturas do mundo, levam ao pé da letra os textos sagrados de suas diversas religiões, interpretando-os cada um à sua maneira, e convencem milhões de pessoas a aceitá-los daquela forma radical e fundamentalista. Qualquer argumento que tente demonstrar uma interpretação mais moderada e esclarecedora, à luz de uma visão mais moderna, filosófica e científica da existência de Deus, é contestado pelos fanáticos de maneira assustadora. “É inspiração do demônio”, dizem eles.
Isto me fez lembrar do meu velho amigo e compadre, o engenheiro agrônomo Erotides Soares Neto, que ficava irritado e impaciente com os argumentos retrógrados de alguns religiosos fanáticos, que na tentativa de arrebanhá-lo para alguma de suas entidades, diziam coisas que ele, sendo uma pessoa esclarecida e muito dada à literatura de assuntos teológicos e científicos, não aceitava sob nenhuma hipótese. Certa vez numa dessas discussões, um fanático ameaçou Soares com o “fogo dos infernos”, devido às suas colocações que contestavam o pensamento radical do religioso. Soares então, já a beira de um colapso nervoso, aos berros, perguntou ao fanático:
- Me diga uma coisa, se eu seguir seus conceitos, quando eu morrer, vou ter que ir para o mesmo céu para o qual você também vai?
O religioso respondeu:
- É claro, você vai para o mesmo céu para o qual eu vou também!
Soares reagiu gritando:
- Eu não! Se eu tiver que ir para um céu cheio de gente chata e burra igual a você, eu prefiro ir pro inferno!
Na minha maneira de pensar, se existem céu e inferno, Soares Neto somente pelo fato de ter dado esta resposta ao chato fanático, merece o céu que é certamente, onde ele deve estar agora.
*Carlos Éden Meira - jornalista e cartunista – DRT 1161
sábado, 30 de Janeiro de 2010
AS “MÁGICAS MENTIRAS” DO LULA
Carlos Éden Meira*
À primeira vista, quem lê o título deste texto, pode achar que estou chamando o Presidente Lula de mentiroso. Bem, não é nada disso. “Mágicas Mentiras” é o título do interessante livro de Antonio Luiz Martins (Lula Martins), um artista de muitas artes que juntamente com Wally Salomão, Ednísio Ribeiro, Adilson (Dicinho) Carvalho, César (Zama) Almeida, Rogério Duarte, Jorge Salomão, Mauricio Almeida e a turma do “Bossa Seis” formavam o chamado “Grupo de Jequié”, considerados conforme comentário feito no livro pelo Mestre em Belas Artes pela Universidade do Novo México Narlan Matos, como os principais representantes do Tropicalismo na Bahia, juntamente com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Torquato Neto e Capinan, dentre outros.
O livro conta também, com um importante comentário do norte-americano Christopher Dunn, Ph.D. em assuntos culturais brasileiros, que tem se dedicado ao estudo de movimentos artísticos do Brasil, dando grande destaque ao Tropicalismo. O Tropicalismo foi um movimento cultural que surgiu no final dos anos 60, considerado quase tão importante para cultura nacional quanto a Semana de Arte Moderna de 1922, conforme o livro. Lula Martins é artista plástico, poeta, compositor, cineasta e ator, tendo sido o principal intérprete do filme underground “Meteorango Kid – O Herói Intergaláctico”, produção baiana de 1969. A primeira vez que ouvi falar em Lula Martins, foi em 1967, quando fui tocar em Itagibá com um conjunto inadequadamente batizado de “The Byrds”, mas que todo mundo só chamava de o “conjunto de Seu Rubens”, em referência ao proprietário dos instrumentos do grupo, Sr. Rubens Almeida, pai do baixista César “Zama”.
Estava num bar de esquina, junto com um baterista que tocou conosco antes de Getulio Jucá, conhecido como Ronaldo “Ganso”, tomando um tal de “Samba em Berlim” (uma horrível mistura de cachaça com coca-cola), quando um senhor com uma aparência de trabalhador rural, se aproximou de mim e perguntou se eu era o filho de “Seu Hermes”. Fiquei sem entender a quem ele se referia, quando alguém do conjunto que chegara naquele momento, (não sei se foi César ou Paulo Krupa), me disse: “ele tá pensando que você é Antonio Luiz”. Alguém do bar, também falou: “ele tá achando que você é o Pinduca”. Pinduca é um apelido do Lula Martins. Creio que o cabelo comprido, jaqueta, calças jeans, botas e óculos escuros que eu usava, foram responsáveis pelo engano daquele senhor. Acho que eu nunca contei este fato ao Lula.
“Mágicas Mentiras” é um livro de suma importância para a atual geração de jovens brasileiros, mormente os jequieenses que atuam no meio artístico da cidade. Seu conteúdo histórico e cultural narrado por Lula Martins de maneira divertida e descontraída, expõe fatos que demonstram a importância de um grupo de jovens conterrâneos, nos difíceis anos da Ditadura Militar que inteligentemente, souberam adaptar para o nosso meio de maneira antropofágica, as novas tendências culturais e artísticas que explodiam mundo afora. Muitas pessoas ligadas à arte e à cultura podem até saber algo a respeito do assunto, é claro. Neste livro, entretanto, Lula Martins que viveu intensamente a época, vai bem mais fundo.
*Carlos Éden Meira é jornalista e cartunista – DRT 1161
Carlos Éden Meira*
À primeira vista, quem lê o título deste texto, pode achar que estou chamando o Presidente Lula de mentiroso. Bem, não é nada disso. “Mágicas Mentiras” é o título do interessante livro de Antonio Luiz Martins (Lula Martins), um artista de muitas artes que juntamente com Wally Salomão, Ednísio Ribeiro, Adilson (Dicinho) Carvalho, César (Zama) Almeida, Rogério Duarte, Jorge Salomão, Mauricio Almeida e a turma do “Bossa Seis” formavam o chamado “Grupo de Jequié”, considerados conforme comentário feito no livro pelo Mestre em Belas Artes pela Universidade do Novo México Narlan Matos, como os principais representantes do Tropicalismo na Bahia, juntamente com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Torquato Neto e Capinan, dentre outros.
O livro conta também, com um importante comentário do norte-americano Christopher Dunn, Ph.D. em assuntos culturais brasileiros, que tem se dedicado ao estudo de movimentos artísticos do Brasil, dando grande destaque ao Tropicalismo. O Tropicalismo foi um movimento cultural que surgiu no final dos anos 60, considerado quase tão importante para cultura nacional quanto a Semana de Arte Moderna de 1922, conforme o livro. Lula Martins é artista plástico, poeta, compositor, cineasta e ator, tendo sido o principal intérprete do filme underground “Meteorango Kid – O Herói Intergaláctico”, produção baiana de 1969. A primeira vez que ouvi falar em Lula Martins, foi em 1967, quando fui tocar em Itagibá com um conjunto inadequadamente batizado de “The Byrds”, mas que todo mundo só chamava de o “conjunto de Seu Rubens”, em referência ao proprietário dos instrumentos do grupo, Sr. Rubens Almeida, pai do baixista César “Zama”.
Estava num bar de esquina, junto com um baterista que tocou conosco antes de Getulio Jucá, conhecido como Ronaldo “Ganso”, tomando um tal de “Samba em Berlim” (uma horrível mistura de cachaça com coca-cola), quando um senhor com uma aparência de trabalhador rural, se aproximou de mim e perguntou se eu era o filho de “Seu Hermes”. Fiquei sem entender a quem ele se referia, quando alguém do conjunto que chegara naquele momento, (não sei se foi César ou Paulo Krupa), me disse: “ele tá pensando que você é Antonio Luiz”. Alguém do bar, também falou: “ele tá achando que você é o Pinduca”. Pinduca é um apelido do Lula Martins. Creio que o cabelo comprido, jaqueta, calças jeans, botas e óculos escuros que eu usava, foram responsáveis pelo engano daquele senhor. Acho que eu nunca contei este fato ao Lula.
“Mágicas Mentiras” é um livro de suma importância para a atual geração de jovens brasileiros, mormente os jequieenses que atuam no meio artístico da cidade. Seu conteúdo histórico e cultural narrado por Lula Martins de maneira divertida e descontraída, expõe fatos que demonstram a importância de um grupo de jovens conterrâneos, nos difíceis anos da Ditadura Militar que inteligentemente, souberam adaptar para o nosso meio de maneira antropofágica, as novas tendências culturais e artísticas que explodiam mundo afora. Muitas pessoas ligadas à arte e à cultura podem até saber algo a respeito do assunto, é claro. Neste livro, entretanto, Lula Martins que viveu intensamente a época, vai bem mais fundo.
*Carlos Éden Meira é jornalista e cartunista – DRT 1161
A MÚSICA QUE MUDOU COSTUMES
Por Carlos Éden Meira
Até meados dos anos 50, ainda não havia por aqui, nenhum movimento cultural que representasse especificamente os anseios de jovens interessados em absorver as mudanças de costumes, que começavam a acontecer no resto do mundo. Consequentemente não havia moda jovem, o que obrigava as garotas e os rapazes da época, a se vestir e se comportar como seus pais, em todos os sentidos. Aqui em Jequié as festas eram animadas por orquestras de baile, sendo a Orquestra Copacabana a mais conhecida, e, os artistas nacionais famosos, quando se apresentavam nos palcos dos cinemas, eram acompanhados pelos chamados “regionais” formados por violonistas locais como Satu, Jonatas Pithon, Gemi Saback, Fernando “Perninha”, dentre outros. Ouvia-se muito no rádio ou nos serviços de alto-falantes, boleros, sambas-canções e a alegre música de Luiz Gonzaga, que era um verdadeiro ídolo da garotada nordestina da época, principalmente durante o período das festas juninas.
Entretanto, através do rádio e do cinema, começava-se a acompanhar as novas tendências musicais influenciadas pelo rhythm and blues e a country music, dando origem a um novo som que representava o que a imprensa chamava de juventude transviada. Era a inevitável explosão do rock and roll que assolava o mundo. Paralelamente a essa invasão do rock forçada comercialmente pela mídia americana, jovens da elite intelectual carioca, amantes inveterados de jazz, mas que por serem de famílias da classe média alta, estudavam música e tinham estreito relacionamento com grandes músicos e poetas nacionais, mostraram que para ser moderno não era preciso necessariamente, gostar de rock nem ser da juventude transviada. Assim, surgiu o movimento musical que se convencionou chamar de bossa nova, onde se mesclava de forma “antropofágica” elementos do jazz, letras bem elaboradas, destacando-se aí a grande parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e uma batida revolucionária do violão, criada por João Gilberto. A bossa nova foi, inegavelmente, o melhor momento da música popular brasileira dos últimos tempos. No final dos anos 50, surgiam os primeiros ídolos do rock brasileiro da pré-jovem guarda representados por Cely Campello, Sergio Murillo, Demétrius e outros. Em meados dos anos sessenta, liderada por Roberto e Erasmo Carlos, veio a explosão da jovem guarda, com suas letras simples e músicas de acordes básicos.
Aqui em Jequié, o maior representante desses movimentos culturais, (bossa nova e jovem guarda) foi o conjunto BOSSA SEIS, formado por Jaime Luna (acordeon e piano), Benedito Sena (bateria), Nilton Muniz (contrabaixo), Judimar Ribeiro (guitarra líder), Mario Alves (guitarra base) Edson (guitarra havaiana) e mais tarde, Heron (saxofone). Surgido no começo dos anos sessenta com o nome de ATALAIA, o Bossa Seis começou tocando bossa nova, mas, teve que seguir as tendências impostas pela mídia através da beatlemania e da jovem guarda, e passou a tocar rock. Naquele tempo, nenhuma banda seria contratada para tocar em bailes se não tocasse músicas de Roberto Carlos ou as versões de músicas dos Beatles de Renato e seus Blue Caps, legítimos representantes da nova onda imposta pela mídia. Alguns jovens “rockeiros radicais” de hoje podem achar estranho, mas, aquilo que Roberto e Renato tocavam era rock. Um rockzinho romântico e colegial, mas, era rock.
O Bossa Seis foi considerado o melhor conjunto da Bahia em sua melhor fase, e, por sua influência, surgiram em Jequié os grupos THE BIRDS, formado por César Almeida (contrabaixo), Getulio Jucá (bateria), Carlos Éden (guitarra solo), Paulo Krupa (guitarra base) e Ivan (saxofone), e o Conjunto LA BAMBA de João Faustino que mais tarde viria a ser o EXTRA SOM do qual inclusive, participou mais tarde, o famoso artista baiano Luiz Caldas, ainda desconhecido, em princípio de carreira. Com a explosão do movimento tropicalista liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, alguns componentes do Bossa Seis e dos Byrds se fundiram dando origem ao AMERICAN HIPPIES, embalados pelas novas vertentes das artes, influenciadas pelo psicodelismo tropicalista, tendo mais tarde se transformado no grupo Alfa.
Daí para frente, formaram-se diversos conjuntos como Os Cisnes que mais tarde viria a ser EMBALO QUATRO, cuja formação mais conhecida foi com Aroldo Vieira, Roque Lui e Valfredo Dórea (vocal), Tõe Gatinha (Guitarra base), Jorge Lima, depois Zé Rodrigues (guitarra solo), Roberto “Caveira” (contrabaixo) Antônio Néri (órgão) e Daniel “Boca” (bateria). O grupo OS ÍMPARES teve na sua formação original, Binho Vieira (guitarra solo), José Pinheiro (contrabaixo), Corbulon Rocha (guitarra base) e Reinaldo Falcão (bateria). No final dos anos 60 surgiram O KINTA DIMENSÃO, com Reginaldo (teclados) Damião (bateria) Tõe Gatinha (contrabaixo), Gilberto Gaso (guitarra solo), Reinaldo Pinheiro (guitarra base) e Betulino (guitarra base), além do CÁPITULO 5º com Aroldo Vieira (bateria e voca) Gilberto Gaso, depois Tiso (guitarra solo ),Cleber Ferreira (guitarra base), Jocéli, depois Paulo Krupa (contrabaixo) e Melchiades (Escaleta). Surgiram então, muitos outros como Os Fondas, que tiveram curta duração. Um bom grupo foi o CLARPT que mais tarde viria ser o ARPÃO, tocando músicas de autoria própria, formado por Rafael Vieira, Luiz Meira, Charles Meira e Thomaz Meira, com a participação dos compositores Pedro Nogueira e Val Rodrigues. O GRUPO CÉU com a participação do cantor e compositor Carlinhos, e de Rita Rodrigues, foi um destaque no meio musical jequieense, assim como A BANDA DO LESTE, grupo musical organizado por César (Zama) Almeida. Vale aqui ressaltar a participação de outros artistas que atuaram no meio musical de Jequié, tais como Marcos Sanches, Pithon, Marcos Morbeck, Jocélio, Carmélio, Caramelo e muitos outros.
Atualmente, a coisa aqui em Jequié está mais para os músicos que fazem “carreira solo”. Artistas como Rei de Jesus, Binha Morbeck, Kátia Morbeck e Jairo, Marcos Belchote, Suely Morbeck, Zezinho Magalhães (que faz parte do GRUPO MUSICAL COROAS), Iracema Miller, Ailton dos Anjos dentre outros, são bastante requisitados pelos barzinhos e têm grande número de admiradores na cidade, assim como os artistas João Mendes, Lynno Santos e ROSY & BANDA. Têm também se destacado as bandas de reggae como MANDACAROOTS e as de forró como LÉ-KUM-CRÉ, CANGAIA DE JEGUE, FLOR DE BANANEIRA, entre outras. No que se refere ao rock, temos Venceslau “Bilaw”, Shau e os ANÉIS DE SATURNO, Iracema Miller e Musaé, dentre outros.
O artista Nuno Menezes tem sido muito elogiado pelos fans de MPB, assim como a cantora Lane Quinto. Um trabalho musical de alto nível vem sendo apresentado pelo trio “ARGUIDÁ”, formado pelo baterista Bené Sena, seu filho pianista Maurílio e o baixista Allan Borges. O grupo tem um repertório recheado do que há de melhor em clássicos da bossa nova e chorinhos, tendo se apresentado em diversos eventos culturais da cidade.
Por Carlos Éden Meira
Até meados dos anos 50, ainda não havia por aqui, nenhum movimento cultural que representasse especificamente os anseios de jovens interessados em absorver as mudanças de costumes, que começavam a acontecer no resto do mundo. Consequentemente não havia moda jovem, o que obrigava as garotas e os rapazes da época, a se vestir e se comportar como seus pais, em todos os sentidos. Aqui em Jequié as festas eram animadas por orquestras de baile, sendo a Orquestra Copacabana a mais conhecida, e, os artistas nacionais famosos, quando se apresentavam nos palcos dos cinemas, eram acompanhados pelos chamados “regionais” formados por violonistas locais como Satu, Jonatas Pithon, Gemi Saback, Fernando “Perninha”, dentre outros. Ouvia-se muito no rádio ou nos serviços de alto-falantes, boleros, sambas-canções e a alegre música de Luiz Gonzaga, que era um verdadeiro ídolo da garotada nordestina da época, principalmente durante o período das festas juninas.
Entretanto, através do rádio e do cinema, começava-se a acompanhar as novas tendências musicais influenciadas pelo rhythm and blues e a country music, dando origem a um novo som que representava o que a imprensa chamava de juventude transviada. Era a inevitável explosão do rock and roll que assolava o mundo. Paralelamente a essa invasão do rock forçada comercialmente pela mídia americana, jovens da elite intelectual carioca, amantes inveterados de jazz, mas que por serem de famílias da classe média alta, estudavam música e tinham estreito relacionamento com grandes músicos e poetas nacionais, mostraram que para ser moderno não era preciso necessariamente, gostar de rock nem ser da juventude transviada. Assim, surgiu o movimento musical que se convencionou chamar de bossa nova, onde se mesclava de forma “antropofágica” elementos do jazz, letras bem elaboradas, destacando-se aí a grande parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e uma batida revolucionária do violão, criada por João Gilberto. A bossa nova foi, inegavelmente, o melhor momento da música popular brasileira dos últimos tempos. No final dos anos 50, surgiam os primeiros ídolos do rock brasileiro da pré-jovem guarda representados por Cely Campello, Sergio Murillo, Demétrius e outros. Em meados dos anos sessenta, liderada por Roberto e Erasmo Carlos, veio a explosão da jovem guarda, com suas letras simples e músicas de acordes básicos.
Aqui em Jequié, o maior representante desses movimentos culturais, (bossa nova e jovem guarda) foi o conjunto BOSSA SEIS, formado por Jaime Luna (acordeon e piano), Benedito Sena (bateria), Nilton Muniz (contrabaixo), Judimar Ribeiro (guitarra líder), Mario Alves (guitarra base) Edson (guitarra havaiana) e mais tarde, Heron (saxofone). Surgido no começo dos anos sessenta com o nome de ATALAIA, o Bossa Seis começou tocando bossa nova, mas, teve que seguir as tendências impostas pela mídia através da beatlemania e da jovem guarda, e passou a tocar rock. Naquele tempo, nenhuma banda seria contratada para tocar em bailes se não tocasse músicas de Roberto Carlos ou as versões de músicas dos Beatles de Renato e seus Blue Caps, legítimos representantes da nova onda imposta pela mídia. Alguns jovens “rockeiros radicais” de hoje podem achar estranho, mas, aquilo que Roberto e Renato tocavam era rock. Um rockzinho romântico e colegial, mas, era rock.
O Bossa Seis foi considerado o melhor conjunto da Bahia em sua melhor fase, e, por sua influência, surgiram em Jequié os grupos THE BIRDS, formado por César Almeida (contrabaixo), Getulio Jucá (bateria), Carlos Éden (guitarra solo), Paulo Krupa (guitarra base) e Ivan (saxofone), e o Conjunto LA BAMBA de João Faustino que mais tarde viria a ser o EXTRA SOM do qual inclusive, participou mais tarde, o famoso artista baiano Luiz Caldas, ainda desconhecido, em princípio de carreira. Com a explosão do movimento tropicalista liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, alguns componentes do Bossa Seis e dos Byrds se fundiram dando origem ao AMERICAN HIPPIES, embalados pelas novas vertentes das artes, influenciadas pelo psicodelismo tropicalista, tendo mais tarde se transformado no grupo Alfa.
Daí para frente, formaram-se diversos conjuntos como Os Cisnes que mais tarde viria a ser EMBALO QUATRO, cuja formação mais conhecida foi com Aroldo Vieira, Roque Lui e Valfredo Dórea (vocal), Tõe Gatinha (Guitarra base), Jorge Lima, depois Zé Rodrigues (guitarra solo), Roberto “Caveira” (contrabaixo) Antônio Néri (órgão) e Daniel “Boca” (bateria). O grupo OS ÍMPARES teve na sua formação original, Binho Vieira (guitarra solo), José Pinheiro (contrabaixo), Corbulon Rocha (guitarra base) e Reinaldo Falcão (bateria). No final dos anos 60 surgiram O KINTA DIMENSÃO, com Reginaldo (teclados) Damião (bateria) Tõe Gatinha (contrabaixo), Gilberto Gaso (guitarra solo), Reinaldo Pinheiro (guitarra base) e Betulino (guitarra base), além do CÁPITULO 5º com Aroldo Vieira (bateria e voca) Gilberto Gaso, depois Tiso (guitarra solo ),Cleber Ferreira (guitarra base), Jocéli, depois Paulo Krupa (contrabaixo) e Melchiades (Escaleta). Surgiram então, muitos outros como Os Fondas, que tiveram curta duração. Um bom grupo foi o CLARPT que mais tarde viria ser o ARPÃO, tocando músicas de autoria própria, formado por Rafael Vieira, Luiz Meira, Charles Meira e Thomaz Meira, com a participação dos compositores Pedro Nogueira e Val Rodrigues. O GRUPO CÉU com a participação do cantor e compositor Carlinhos, e de Rita Rodrigues, foi um destaque no meio musical jequieense, assim como A BANDA DO LESTE, grupo musical organizado por César (Zama) Almeida. Vale aqui ressaltar a participação de outros artistas que atuaram no meio musical de Jequié, tais como Marcos Sanches, Pithon, Marcos Morbeck, Jocélio, Carmélio, Caramelo e muitos outros.
Atualmente, a coisa aqui em Jequié está mais para os músicos que fazem “carreira solo”. Artistas como Rei de Jesus, Binha Morbeck, Kátia Morbeck e Jairo, Marcos Belchote, Suely Morbeck, Zezinho Magalhães (que faz parte do GRUPO MUSICAL COROAS), Iracema Miller, Ailton dos Anjos dentre outros, são bastante requisitados pelos barzinhos e têm grande número de admiradores na cidade, assim como os artistas João Mendes, Lynno Santos e ROSY & BANDA. Têm também se destacado as bandas de reggae como MANDACAROOTS e as de forró como LÉ-KUM-CRÉ, CANGAIA DE JEGUE, FLOR DE BANANEIRA, entre outras. No que se refere ao rock, temos Venceslau “Bilaw”, Shau e os ANÉIS DE SATURNO, Iracema Miller e Musaé, dentre outros.
O artista Nuno Menezes tem sido muito elogiado pelos fans de MPB, assim como a cantora Lane Quinto. Um trabalho musical de alto nível vem sendo apresentado pelo trio “ARGUIDÁ”, formado pelo baterista Bené Sena, seu filho pianista Maurílio e o baixista Allan Borges. O grupo tem um repertório recheado do que há de melhor em clássicos da bossa nova e chorinhos, tendo se apresentado em diversos eventos culturais da cidade.
OS "CAPACHILDOS"
Carlos Éden Meira*
A subserviência é uma das mais indignas, mais ridículas, mais vergonhosas das condições humanas. O indivíduo subserviente não tem respeito por si mesmo, e, quando demonstra respeito por alguém é meramente, um puro ato de bajulação. Os subservientes quando estão entre pessoas influentes, fingem não ver velhos conhecidos que porventura estejam ali por perto, se esses velhos conhecidos forem pessoas cuja importância naquele momento, está distante dos seus asquerosos interesses. Os subservientes ou capachildos são “moleques-de-recado” dos seus superiores, ouvem terríveis xingamentos e descomposturas de seus chefes na presença de outras pessoas, e ainda ficam sorrindo amarelo, com aquelas caras de “sinhá mariquinha cadê o frade”. Não têm caráter, não têm senso de ridículo, não são solidários com os problemas de sua própria classe social, pois, preferem cuidar dos interesses dos ricos dos quais lambem até as solas dos sapatos.
Dá náusea vê-los em ação num evento qualquer, a rir exageradamente das piadas mais ridículas, quando contadas por um de seus “ídolos superiores”, num grupo de conversas. Ficam inquietos, desesperados, quando veem uma câmera se aproximando, e procuram se posicionar o mais próximo possível daquele que em suas bajuladoras concepções, for o mais importante da roda. Com um sorriso idiota nos lábios, ficam olhando para todos os lados para ver se as demais pessoas presentes ao evento os veem ali entre as “celebridades”, sendo filmados. É o seu momento de “glória”!
Extremamente hipócritas, os capachildos se fazem de religiosos frequentando entidades religiosas diversas para bajular seus respectivos líderes, sempre visando mesquinhos interesses próprios. Na política, quase sempre se dão bem, pois, sem escrúpulos nem caráter, encontram aí o ambiente propício para pôr em prática o seu servilismo exacerbado. Incapazes de ideais mais elevados, seus anseios visam somente obter recursos para realizar seus ridículos sonhos de consumo, tentando imitar aos trancos e barrancos, o padrão de vida de seus superiores. No meio artístico e cultural, não têm opinião definida. Gostam daquilo que a mídia diz que é bom, ou daquilo que os seus superiores gostam, só para bajular. Em compensação, os capachildos não são radicais, pois, sua ideologia é puxar o saco de quem estiver “por cima”, não importa de qual partido político, de qual raça ou de qual religião. Justiça seja feita!
*Carlos Éden Meira - jornalista e cartunista – DRT 1161
Carlos Éden Meira*
A subserviência é uma das mais indignas, mais ridículas, mais vergonhosas das condições humanas. O indivíduo subserviente não tem respeito por si mesmo, e, quando demonstra respeito por alguém é meramente, um puro ato de bajulação. Os subservientes quando estão entre pessoas influentes, fingem não ver velhos conhecidos que porventura estejam ali por perto, se esses velhos conhecidos forem pessoas cuja importância naquele momento, está distante dos seus asquerosos interesses. Os subservientes ou capachildos são “moleques-de-recado” dos seus superiores, ouvem terríveis xingamentos e descomposturas de seus chefes na presença de outras pessoas, e ainda ficam sorrindo amarelo, com aquelas caras de “sinhá mariquinha cadê o frade”. Não têm caráter, não têm senso de ridículo, não são solidários com os problemas de sua própria classe social, pois, preferem cuidar dos interesses dos ricos dos quais lambem até as solas dos sapatos.
Dá náusea vê-los em ação num evento qualquer, a rir exageradamente das piadas mais ridículas, quando contadas por um de seus “ídolos superiores”, num grupo de conversas. Ficam inquietos, desesperados, quando veem uma câmera se aproximando, e procuram se posicionar o mais próximo possível daquele que em suas bajuladoras concepções, for o mais importante da roda. Com um sorriso idiota nos lábios, ficam olhando para todos os lados para ver se as demais pessoas presentes ao evento os veem ali entre as “celebridades”, sendo filmados. É o seu momento de “glória”!
Extremamente hipócritas, os capachildos se fazem de religiosos frequentando entidades religiosas diversas para bajular seus respectivos líderes, sempre visando mesquinhos interesses próprios. Na política, quase sempre se dão bem, pois, sem escrúpulos nem caráter, encontram aí o ambiente propício para pôr em prática o seu servilismo exacerbado. Incapazes de ideais mais elevados, seus anseios visam somente obter recursos para realizar seus ridículos sonhos de consumo, tentando imitar aos trancos e barrancos, o padrão de vida de seus superiores. No meio artístico e cultural, não têm opinião definida. Gostam daquilo que a mídia diz que é bom, ou daquilo que os seus superiores gostam, só para bajular. Em compensação, os capachildos não são radicais, pois, sua ideologia é puxar o saco de quem estiver “por cima”, não importa de qual partido político, de qual raça ou de qual religião. Justiça seja feita!
*Carlos Éden Meira - jornalista e cartunista – DRT 1161
RADINHO DE PILHA - Por Carlos Éden Meira*
Ele ficava ali, sentado horas a fio em um banco tosco talhado num pedaço de tronco, sob a sombra de uma velha gameleira. Barbas, sobrancelhas e cabelos alvos, destacavam-se da pele escura, queimada de sol e marcada por um emaranhado de rugas, assemelhando-se a uma figura esculpida em barro, com rachaduras provocadas pela exposição ao sol. Suas mãos calejadas por anos de trabalho duro, moviam-se com destreza no preparo do cigarrinho ”drobó”, a picar o fumo de corda, a cortar e alisar a palha com uma pequena faca bem amolada, que trazia sempre numa bainha de couro cru, presa ao cinto junto com o seu “isqueiro”, o qual consistia em uma ponta de chifre de boi, recheada com algodão, que se tornava em brasa ao contato com pequenas fagulhas ali lançadas cuidadosamente, ao atrito de duas pequenas pedras ou pedaços de metal. Para acender o cigarro, era preciso antes assoprar bastante o algodão, até se tornar em brasa viva, e ali encostar a ponta do cigarro.
Ao lado, seu inseparável “radinho de pilha”, sempre sintonizado em alguma emissora de São Paulo, cidade de onde recebera o radinho, enviado por um de seus netos que já havia tempos, para lá viajara em busca de um sonhado emprego, numa fábrica de biscoitos. Maravilha das maravilhas, o radinho tocava e cantava lindas músicas que falavam de saudades do sertão, que o emocionavam, e às vezes o faziam chorar. Ah, mas também contava casos engraçados e dava muita notícia interessante! “O compadre Quincas da Lagoa Branca tem um maior do que esse, mas, só toca música feia e só diz mentira”, afirmava ele. Se alguém perguntasse quais as mentiras do rádio do compadre, ele dizia revoltado:
“Pois não é que uma vez, o danado do rádio do compadre tava dizendo que os gringos tinham pisado na Lua? Onde já se viu mentira mais cabeluda do que essa? A lua é coisa de Deus e só quem pisa nela é São Jorge! E as músicas que tocava? Tinha um tal de roque, roque, roque! Parecia até rato roendo a parede! Meu radinho, não. Meu radinho é pequeno, mas, só fala a verdade, só conta casos engraçados e só toca música bonita. Eu contei isso pro Mestre Libório carpinteiro, e, ele me disse que depende da marca do rádio. Rádio de marca vagabunda é muito mentiroso e só toca porcaria. O meu foi meu neto quem enviou de São Paulo, é rádio do bom”, concluiu sorrindo. Ao anoitecer, levantou-se de seu banco tendo o cuidado de não esquecer o querido radinho, o qual guardou carinhosamente, em um saco de lona que levava a tiracolo, dizendo:
“É hora de ir pra casa, pois, quando escurece, isso aqui fica cheio de alma penada”!
Quando alguém o questionava, afirmando que era preciso temer os vivos e não os mortos, ele rebatia:
“Os vivos? Dos vivos, eu não tenho um pingo de medo! Eu tenho medo mesmo é dos mortos. Os vivos que se metem a besta comigo, eu corto no facão! Mas, quem já morreu não morre duas vezes. Deus me livre! Com alma penada eu não me meto! Até amanhã”.
Carlos Éden Meira é jornalista e cartunista – DRT 1161
Ele ficava ali, sentado horas a fio em um banco tosco talhado num pedaço de tronco, sob a sombra de uma velha gameleira. Barbas, sobrancelhas e cabelos alvos, destacavam-se da pele escura, queimada de sol e marcada por um emaranhado de rugas, assemelhando-se a uma figura esculpida em barro, com rachaduras provocadas pela exposição ao sol. Suas mãos calejadas por anos de trabalho duro, moviam-se com destreza no preparo do cigarrinho ”drobó”, a picar o fumo de corda, a cortar e alisar a palha com uma pequena faca bem amolada, que trazia sempre numa bainha de couro cru, presa ao cinto junto com o seu “isqueiro”, o qual consistia em uma ponta de chifre de boi, recheada com algodão, que se tornava em brasa ao contato com pequenas fagulhas ali lançadas cuidadosamente, ao atrito de duas pequenas pedras ou pedaços de metal. Para acender o cigarro, era preciso antes assoprar bastante o algodão, até se tornar em brasa viva, e ali encostar a ponta do cigarro.
Ao lado, seu inseparável “radinho de pilha”, sempre sintonizado em alguma emissora de São Paulo, cidade de onde recebera o radinho, enviado por um de seus netos que já havia tempos, para lá viajara em busca de um sonhado emprego, numa fábrica de biscoitos. Maravilha das maravilhas, o radinho tocava e cantava lindas músicas que falavam de saudades do sertão, que o emocionavam, e às vezes o faziam chorar. Ah, mas também contava casos engraçados e dava muita notícia interessante! “O compadre Quincas da Lagoa Branca tem um maior do que esse, mas, só toca música feia e só diz mentira”, afirmava ele. Se alguém perguntasse quais as mentiras do rádio do compadre, ele dizia revoltado:
“Pois não é que uma vez, o danado do rádio do compadre tava dizendo que os gringos tinham pisado na Lua? Onde já se viu mentira mais cabeluda do que essa? A lua é coisa de Deus e só quem pisa nela é São Jorge! E as músicas que tocava? Tinha um tal de roque, roque, roque! Parecia até rato roendo a parede! Meu radinho, não. Meu radinho é pequeno, mas, só fala a verdade, só conta casos engraçados e só toca música bonita. Eu contei isso pro Mestre Libório carpinteiro, e, ele me disse que depende da marca do rádio. Rádio de marca vagabunda é muito mentiroso e só toca porcaria. O meu foi meu neto quem enviou de São Paulo, é rádio do bom”, concluiu sorrindo. Ao anoitecer, levantou-se de seu banco tendo o cuidado de não esquecer o querido radinho, o qual guardou carinhosamente, em um saco de lona que levava a tiracolo, dizendo:
“É hora de ir pra casa, pois, quando escurece, isso aqui fica cheio de alma penada”!
Quando alguém o questionava, afirmando que era preciso temer os vivos e não os mortos, ele rebatia:
“Os vivos? Dos vivos, eu não tenho um pingo de medo! Eu tenho medo mesmo é dos mortos. Os vivos que se metem a besta comigo, eu corto no facão! Mas, quem já morreu não morre duas vezes. Deus me livre! Com alma penada eu não me meto! Até amanhã”.
Carlos Éden Meira é jornalista e cartunista – DRT 1161
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